A destruição de valor continua

Posted: 2016/05/04 in Notícias
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“Quando vejo que o atual governo a querer destruir grande parte desta pluralidade, eliminando administrativamente projetos educativos não estatais só pelo facto de não serem estatais (do tal Estado que não é nada neutro na educação que programa e desprograma), depois de os ter apoiado anos a fio, digo para comigo: a destruição da educação escolar prossegue, agora a um ritmo ainda mais acelerado.”

Um texto do Prof. Joaquim Azevedo

Não há educação neutra. A suposta neutralidade da educação constitui um dos maiores dramas da escola atual. Gerações de crianças e jovens são educados, cada vez durante mais tempo – e um tempo precioso – em “casas de educação” que evitam orientar, estabelecer limites claros, perspetivar a vida e as suas avenidas, construir projetos para um futuro digno, ajudar cada um a comprometer-se com o mundo que o rodeia,…Segundo a nossa Constituição, o Estado não pode programar a educação segundo quaisquer diretrizes, o que vai de encontro à salvaguarda dos direitos e liberdades pessoais e da dignidade da pessoa humana.

Mas, o que acontece…bom, o que acontece é que o Estado, através do Ministério da Educação, programa e desprograma a educação a toda a hora, emitindo centenas de decretos, portarias, despachos e circulares que manietam as escolas e os professores e ora os levam por ali, ora para acolá, ora para…fazendo das escolas e dos professores canas agitadas pelo vento, sem rumo claro, sem orientações com o mínimo de sustentabilidade, desfazendo o que pais e professores fazem tantas vezes com tanto esforço. Não se respeita a Constituição, mas a estes cavados e insistentes desrespeitos o Tribunal Constitucional diz nada.

E, ainda mais grave, as novas gerações crescem neste contexto, ou seja, como canas agitadas pelo mesmo vento, ainda por cima num tempo em que as famílias se debatem também com imensas dificuldades que a economia, os empregos, a organização da vida nas cidades, os novos medos, … e em que educar é tarefa cada vez mais difícil; e é-o ainda mais porque o é para todos, instituições sociais, pais e professores. Não há heróis neste novo tempo em que vivemos e muitos de nós ainda não nos apercebemos disso! Continuamos à espera do salvador, que será o Ministro seguinte…e o seguinte…e o seguinte!

A grande transição cultural em que vivemos faz apelo à concentração de todos os cidadãos e instituições no essencial: salvaguardar os direitos e liberdades de cada pessoa, garantir e promover a dignidade humana, no respeito absoluto pela plularidade de instituições e projetos de educação existentes na sociedade. O Estado deve concentrar-se em os promover, num clima de qualidade, de justiça e de equidade.

Três qualidades que a escola portuguesa está ainda longe de alcançar, sendo de louvar, como sempre o faço, os enormes progressos verificados nos últimos decénios. Mas a injustiça e a desigualdade são ainda feridas graves da escola pública e privada em Portugal.

O descalabro a que se assiste nas políticas públicas de educação, afastanto-as do respeito pelo quadro constitucional e remetendo as escolas para uma constante desorientação de rumos, fazendo dos “projetos educativos” das escolas uns bibelôs que nem para decoração servem, destruindo o que com tanto esforço se ergue, desincentivando o nascimento de novos projetos e melhores práticas pedagógicas, é um caminho que só serve a desilusão de todos.

Quem me conhece sabe que nunca gostei de colocar paninhos de renda para tapar os problemas que temos diante dos olhos. Quando o atual governo anuncia mais liberdade às escolas e agrupamentos para definirem os seus rumos educativos digo para comigo: força, é por aí mesmo. O caminho é longo, mas é por aqui. Todos os projetos educativos, na sua imensa pluralidade, são imprescindíveis para esta ciclópica tarefa de educarmos bem as novas gerações. Estamos na infância de uma nova institucionalidade da educação escolar. Não perceber isto é andar a desbaratar o já pouco capital de confiança que nos resta.

Quando vejo que o atual governo a querer destruir grande parte desta pluralidade, eliminando administrativamente projetos educativos não estatais só pelo facto de não serem estatais (do tal Estado que não é nada neutro na educação que programa e desprograma), depois de os ter apoiado anos a fio, digo para comigo: a destruição da educação escolar prossegue, agora a um ritmo ainda mais acelerado.

Nós temos necessidade de todos os projetos educativos que a sociedade portuguesa foi capaz de construir e deveríamos ter como objetivo acarinhá-los e dar-lhes pernas para andarem por si mesmos, apoiados nos professores, pais, alunos e parceiros locais, em liberdade e com autonomia.

O caminho a refazer é tão longo e tão árduo! Porquê e para quê desfazer o que temos, apenas por mero preconceito? O que está em causa, esse é o meu foco, é este modelo absurdo de políticas públicas na educação, seguido por muitos governos consecutivos, que destrói valor, vilipendia o trabalho sério de muitos milhares de professores e encarregados de educação, faz gato sapato dos clamores dos alunos por uma escola capaz de educar, educar mesmo!, transforma as escolas, os professores e alunos em ratinhos de experimentação laboratorial (ex. de exames e não-exames), desilude todos e faz da mediocridade a norma, apenas porque quanto mais medíocre se for, mais conforme se é. Ninguém nos incomoda e nós não incomodamos ninguém!

Até ao dia…em que os alunos não vão aguentar mais e vão virar isto tudo do avesso!

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